Apresentação

Apresentação

quarta-feira, 27 de março de 2013

A Oração de Jesus na Cruz

Lc 23,33-49

O texto do Evangelho: Lucas 23,33-49[2]

‘“Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” Repartiram então suas vestes tirando a sorte. O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Eleito!” Os soldados também zombavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o outro o repreendeu: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma pena? Para nós, é justo sofrermos, pois estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”. E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando começares a reinar”. Ele lhe respondeu: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. Já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu toda a terra até às três da tarde, pois o sol parou de brilhar. O véu do Santuário rasgou-se pelo meio, e Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Dizendo isto, expirou. O centurião, vendo o que acontecera, glorificou a Deus dizendo: “Realmente! Este homem era justo!” E as multidões que tinham acorrido para assistir à cena, viram o que havia acontecido e foram embora, batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que o acompanhavam desde a Galiléia, se mantinham a distância, olhando essas coisas”’.

Segundo o Evngelho de Lucas, a última palavra de Jesus em sua vida foi uma oração. Jesus morre rezando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

É uma oração que ele sabe de memória. No momento dramático que está vivendo, evidentemente não tem nem tempo nem modo de compor orações; brotam do coração aquelas que lhe são mais familiares, que têm dentro como um grito.

Aquelas palavras são de um Salmo: “Em ti, Senhor, me refugiei, jamais serei iludido. Pela tua justiça, salva-me” (Sal 30,2.6).

 

Oração bíblica

Os versos do Salmo que Jesus deixa emergir do fundo do coração e da memória foram compostos muitos séculos antes dele. Poderia ter considerado eles como oração distante, escrita por homens de um mundo diferente, de uma mentalidade e de uma cultura diversa da sua; mesmo assim, aquele Salmo tão antigo, sobre os lábios de Jesus, torna-se sua oração, identifica-se com sua experiência. É como se o pronunciasse naquele momento, porque se tornou expressivo da sua realidade. Diante da morte as palavras mais verdadeiras que Jesus tem necessidade de pronunciar são palavras da Bíblia.

Também nós procuramos aprender a ler, durante o nosso “itinerário”, naquelas orações antigas, pronunciadas por outros muitos séculos faz; a ler a nossa experiência e a ver como através delas nos sentíamos entendidos e interpretados. Temos procurado aprender de que são palavras justas, porque dizem aquilo que de mais verdadeiro tínhamos ou temos dentro. Devemos conservar como recordação permanente que as orações bíblicas são escritas também para nós. Rezando com aquelas palavras escritas tantos séculos faz, encontramos o modo de exprimir-nos mais autenticamente, experimentamos que Deus a colocou dentro de nós, para podermo-nos manifestar diante dele e diante dos homens, porque com aquelas palavras dizemos aquilo que de outro modo não seríamos capazes de explicar nem a nós e nem aos outros.

Jesus que reza no momento supremo da sua vida nos ensina a confiar-nos, com a sua oração, à palavra de Deus.

 

Solidão no testemunho

O Salmo que Jesus proclama é uma palavra de confiança total. Jesus “se entrega” ele mesmo a Deus, cumpre um ato de total abandono ao Pai.

Está vivendo não apenas uma situação dramática: é a situação limite da morte. É uma morte em total, perfeita, amarguíssima, solidão. O Evangelho cuida para fazer-nos notar que ninguém ao redor o compreendeu, e a narração que introduz esta última palavra de Jesus sublinha fortemente que todos o abandonaram. As pessoas que deveriam tê-lo compreendido, que tinham motivos de estar perto dele, não estão. O povo observa, os chefes o desprezam, os soldados zombam dele, e até um dos malfeitores pregado na cruz o insulta. É dramático ver como estas pessoas (os chefes, os soldados, os malfeitores) que representam categorias que pensam de forma muito distinta entre si, até inimigas entre si, nenhuma delas está com Jesus.

Tudo parece dizer-lhe que é uma morte absurda, que não serve para nada, é um gesto equivocado e por isso ninguém o apóia. A solidão que experimenta não é apenas a de não ser compreendido, mas é a solidão de ser objeto de zombaria e desprezo naquilo que mais deseja de coração: isto é, a salvação. O estribilho de quem está perto dele e o insulta é sempre igual: “Salva-te a ti mesmo”, “Salve-se a si mesmo”.

Esta palavra-chave, repetida três vezes, é a palavra chave de toda a pregação e missão de Jesus: é a palavra que Lucas tomou inclusive como ponto de referência de todo o seu Evangelho. O evangelista apresenta Jesus que começa o seu ministério público em Nazaré, no capítulo 3, pronunciando – como uma citação da Escritura – a palavra de salvação: “Todo homem verá a salvação de Deus”. Com este anúncio de salvação inaugura-se a missão de Jesus.

E o evangelista fecha o seu segundo livro, os Atos dos Apóstolos, quase como lacre de tudo o que contou, ainda com a palavra salvação: “A salvação de Deus é agora dirigida aos pagãos” (At 28,28).

É a realidade da salvação que vem colocada em questão, justamente no momento culminante, quando Jesus está por morrer. O povo lhe diz: “Se és verdadeiramente capaz de salvar, começa a salvar-te a ti mesmo. Como podes dar salvação, se não saber dar salvação a ti mesmo?”.

O argumento parece evidente e irrefutável: Se Jesus não sabe salvar-se, tampouco se pode crer nele. Jesus se encontra só, e é atacado exatamente no centro de sua missão: dar a salvação. Pede-se que use o poder que diz ter e que o use em seu favor. Se o usar para descer da cruz, crerão que é o Messias.

Mas Jesus não usa este poder. De fato, se o usasse, se faria garantia (sinal) de um Deus pagão, de um Deus detentor de poder e distribuidor de poder, para aumentar o poder de todos, de um Deus que se serve do poder para seu próprio proveito e o distribui para que todos se sirvam dele para seu próprio proveito. Se descer da cruz, crerão, mas crerão num Deus cômodo, numa imagem equivocada de Deus.

Abandono no amor do Pai

Jesus escolhe não descer da cruz. É verdade que deste jeito morrerá só e abandonado, mas dará testemunho de Deus que dá a vida, o Deus a serviço do homem. Dará testemunho do Deus que é Amor.

E eis, neste pano de fundo, o significado da última palavra de Jesus. Encontra-se diante da contestação máxima, definitiva, a que se refere a sua missão à qual quer ser fiel até o fim. Nesta solidão, que exteriormente parece fracasso total, Jesus reage exclamando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Assim dá testemunho do Deus do Evangelho, do Deus da fé, do Deus em quem se confia de olhos fechados, o Deus no qual também somos convidados a depor a nossa vida, nosso passado, nosso presente e nosso futuro.

 

Fé e oração

A pergunta fundamental que emerge desta cena e desta palavra de Jesus é: em qual Deus creio? No Deus do qual posso esperar certo êxito, uma certa aliança, da qual me posso servir para proveito próprio? Ou então creio no Deus que dá a vida, se confio a ele todo meu ser, meu projeto de vida e meu futuro? Creio no Deus que me devolverá a vida em cêntuplo, mesmo se a evidência será a morte, porque a certeza é a vida com o Ressuscitado? Jesus no Evangelho disse: quem perde a própria vida a encontrará, mas quem, ao contrário, quer encontrá-la, deixando-a fechada em si mesma e não se confia, a perderá.

Há uma segunda pergunta: minha oração é a oração da exigência, ou é a oração da confiança?

Quando o Senhor nos guia em direção do centro da oração que é oração de confiança, de entrega da nossa vida em suas mãos, neste momento atingimos a atitude fundamental, primária e fonte da existência,, porque a existência do homem é confiar-se e saber esperar. O bem que se faz no mundo vem do fato de que alguém vai além do cálculo, além da medida, além da pura racionalidade.

A atitude de morte, porém, é aquela de um mundo que tem medo do futuro, que tem medo de dar a vida: e então desce inexoravelmente em direção de um sabor progressivo de morte, em direção a um entristecer-se de todas as expressões da existência. Assim se explicam tantos fatos que sucedem em torno a nós, em uma civilização que perdeu o gosto de arriscar, de jogar-se o futuro de Deus, de colocar-se nas mãos do Pai.

Jesus se confia. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. A sua oração exprime aquele abandono final, no qual encontramos a verdade de nós mesmos, e do qual, porém, não somos capazes. O somos capazes, às vezes, na nossa fantasia, mas quando estamos diante de uma realidade que nos pede de dar, verdadeiramente, um salto, então vemos como a oração de Jesus está distante de nós e representa um ideal que não somos capazes de realizar.

Logo, rezemos: “Senhor, não somos capazes de dizer aquela palavra de entrega de Jesus: dize-a tu em mim. Tu, Senhor Jesus, que vives em mim com a plenitude do teu Espírito, pronuncia em mim aquela oração , coloca-a no meu coração. Faze que eu saiba reconsiderar toda a minha vida à luz desta oração, que saiba reconsiderar as minhas atividades, as coisas pelas quais sou chamado, o futuro, a minha própria escolha vocacional e de entrega. Diante da tua cruz, oh Senhor, e na potência da tua ressurreição, sempre sou tão pobre, em falta. Peço-te de imprimir no meu coração o teu abandono supremo, porque nele verdadeiramente manifestaste Deus. Tu, ó Senhor, não quiseste enganar-nos, não quiseste descer da cruz, e com a tua oração começou a surgir em torno a ti o Reino do Pai. O centurião glorificou a Deus, as multidões retornaram batendo-se o peito, convencidas de encontrar-se diante de alguma coisa extraordinária, de uma realidade desconhecida e nova. Antes ainda de manifestar-se na glória da ressurreição, tu te manifestaste colocando nas mãos do Pai a tua vida. Ajuda-nos a entender que uma existência evangélica na qual se manifesta o abandono ao Pai é já presença do Reino, é já manifestação da verdadeira potência de Deus, não da potência pelo poder, mas daquela que se põe a serviço”.

Da oração passemos assim ao serviço e ao dom de nós mesmos, porque estas são as atitudes fundamentais da existência cristã.

Às vezes somos capazes, em nossa fantasia, mas quando nos encontramos ante uma realidade que exige que demos um salto, então vemos como a coração de Jesus está distante de nós, representa um ideal que não podemos realizar.

MARTINI, Carlo Maria. Itinerário de oración. Bogotá: Paulinas, 1986.


[1] In: MARTINI, Carlo Maria. Itinerário de Oración. Bogotá: Ed. Paulinas, 1986, p. 46-52, tradução livre de Frei João Carlos Karling, ofm (jckarling@gmail.com), para uso exclusivamente interno no curso sobre cuidadores e cuidadoras da Saúde – CRBRS, 2010. O mesmo comentário foi reeditado em Carlo Maria Martini, Qualcosa de così personale. Meditazioni sulla preghiera, Milano, Mondadori 2009, p. 49-55. Faço aqui uma junção dos dois textos. Eles são praticamente iguais.

[2] Versão da Bíblia da CNBB, http://www.bibliacatolica.com.br/02/49/23.php , acesso dia 25.04.2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Irmãos em Cristo, Paz e Bem.
Seu comentário é muito importante para nós...
Muito obrigado pela sua contribuição.
Que Deus lhe abençoe hoje e sempre!
Paróquia Rede de Comunidades São José