Apresentação

Apresentação

quinta-feira, 21 de março de 2013

Rejeição de Jesus e luz sobre a Cruz (I): A Cruz compromete o rosto de Deus

5ª. Feira Quinta semana da Quaresma

João 8,51-59

“Antes que Abraão fosse, Eu Sou”

Retomemos o evangelho segundo João

O evangelho de João descreve a Jesus com acentos luminosos. Jesus se expressa com longos discursos, de tom meditativo, que geralmente tem como eixo sua identidade de único revelador de Deus e do caminho que leva à salvação. O quarto evangelho proclama que na “carne” de Jesus e através dela, Deus se revela ao mundo.

Isto supõe, da nossa parte, como leitores, uma atitude contemplativa que coloque a atenção na verdade essencial: Jesus é o Verbo de Deus que vem ao mundo para revelar imenso amor de Deus para o mundo.

Na medida em que contemplamos, vamos compreendendo as afirmações de Jesus, que proclama ser o “Filho de Deus” (João 5,17-18) e que ainda antes de Abraão já existia (8,58), situado dentro de um grande horizonte: Jesus procede de Deus e a Deus retorna (1,1; 13,1), e neste movimento de descida e subida, atrai toda a humanidade a Deus. Suscita-se assim um caminho de descobrimento e de acolhida de Jesus, que tem como momento culminante a exclamação plena de gozo e de adoração da parte de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” (20,28).  É assim como o seguimento de Jesus, neste evangelho, se concentra no “crer em Jesus” e no prolongamento em nossa vida atual do seu amor pelos demais, assim como o fez na Cruz.

Porém, assim como o mostra o evangelho, Jesus gera dissensões: na medida em que vai-se revelando, algumas pessoas crêem n’Ele, enquanto que outras o contradizem e rejeitam. Diante de Jesus não existem meios termos: ou se o acolhe ou se o rejeita. E todos os conflitos que se levantam contra Ele terminam confluindo numa única e estrema extrema: a luta entre a vida e a morte, entre o amor e o ódio, entre a luz e as trevas.  Sem dúvida, Jesus continuará sempre se revelando, tratando de responder às inquietudes, aos desentendimentos e, ainda mais, às resistências mesquinhas e irracionais.

Tal como vimos lendo nos capítulos 7 e 8 de João […],na medida em que Jesus foi fazendo as seis revelações de se mesmo, foram aparecendo sucessivas contradições por parte de seus adversários.  Jesus se deu a conhecer como

(1)  O enviado do Pai

(2)  A fonte de água viva

(3)  A luz do mundo

(4)  O “Eu Sou”, revelado no Êxodo

(5)  O Filho doador de libertade

(6)  O doador da vida

(7) O Filho de Deus pré-existente (tema do evangelho de hoje).

Vale à pena que olhemos rapidamente a forma negativa com a qual reagem diante de Jesus os seus adversários. As frases que citamos a seguir englobam bastante bem o que Jesus chama “o ódio do mundo”. Estas são as objeções deles para abrir-se à luz do amor de Jesus:

- “Uns diziam: ‘engana ao povo’” (7,12)

- “Como possui tal cultura, se não tem instrução?” (7,15)

- “Estás endemonhadoo” (7,20)

- “Por acaso o Messias virá da Galiléia?” (7,41)

- “Tu dás testemunho em teu favor: teu testemunho não é válido” (8,13)

- “Onde está teu pai?” (8,19)

- “Será que pensa em se matar...” (8,22)

- “És samaritano e tens um demônio” (8,48.52)

Aprofundemos a passagem de hoje (8,51-59)

Respondendo à última objeção, Jesus diz: “Não estou endemoninhado, mas honro meu Pai” (8,49). Daqui se parte para a revelação mais alta de Jesus: a relação que tem com o Pai é única, Ele é o Filho, que existe desde antes da criação do mundo (ver 1,2-3).

Desta relação deriva-se em Jesus: (1) seu poder de vivificar; (2) sua glória e (3) sua pré-existência. Vejamos como o Evangelho o apresenta.

Porque está unido ao Pai, Jesus vivifica: “Se alguém guarda minha Palavra, não verá a morte, jamais” (8,51). Segundo esta declaração, aceitar a Jesus – entrar em comunhão com Ele - é aderir à vida, superar a morte. Esta comunhão não é alcançada de forma sentimental, senão mediante uma obediência efetiva aos seus ensinamentos.

Como o evangelista o faz notar, esta frase de Jesus é suficiente para suscitar a ira de seus adversários. Ao acusá-lo de endemoninhado ou louco, expõem suas razões: “Abraão morreu, e também os profetas, e tu dizes...” (8,52).  Então formulam sua insinuação de morte: “És, porventura, maior que nosso pai Abraão, que morreu? Os profetas também morreram. Quem pretendes ser?” (8,53).  A pergunta equivale a “Quem és tu?”, que coloca às claras – como viemos dizendo - o coração do conflito: a identidade de Jesus.

Para um judeu ninguém na terra pode ser superior a Abraão ou aos profetas. Pertencer à descendência de Abraão é garantia de ser um povo livre.  Jesus faz disto o ponto de partida de um chamado de atenção: ser descendência de Abraão não é um simples privilégio, mas uma chamada a viver conforme a atitude do Patriarca, isto é, a obediência a Deus.

Por outra parte, para entender a afirmação de Jesus, é necessário colocar-se no plano do conhecimento. Como ensina a Bíblia: o que “conhece” não é aquele que sabe, mas sim aquele que está aberto a uma relação profunda e pessoal com Deus.  Jesus é o “Filho” que conhece e obedece, desta forma leva à plenitude, por completo, a aliança selada com Abraão, “Eu, ao contrário, o conheço” (8,55). É assim que o Filho glorifica ao Pai (8,54).

E mais ainda: “Vosso pai Abraão se alegrava esperando ver meu dia: viu-o e se alegrou” (8,56). O Pai de Jesus é Deus e não Abraão. Porém, Abraão se alegra pela chegada de Jesus, o cumprimento da promessa (eco de Gênesis 17,17: o riso de Abraão, que as interpretações tardias relacionam com sua abertura à Palavra salvadora de Deus).

Os chefes, porém, insistem em não se aprofundar mais em nenhuma das palavras de Jesus. As interpretam superficialmente, menosprezando sua origem divina. Não as querem ouvir e apresentam esta objeção; “Não completaste cinqüenta anos e conheceste Abraão?” (8,57). Esquecem que toda a promessa feita a Abraão é uma promessa de vida, de uma aliança perpétua que domina sobre a morte e estende o nome, a memória e a fé de Abraão através de mil gerações. 

Enão Jesus proclama terminantemente: “Antes que Abraão existisse, EU SOU” (9,58).  Este é o nome de Deus dado como resposta à pergunta de Moisés no monte Sinai, antes de ir apresentar-se diante do Faraó, no Egito. 

Este nome contem tudo: sua fidelidade, sua presença, seu interesse pelos homens, sua capacidade de dar vida e liberdade.  Em Jesus, o Filho, revela-se este mistério.

Vêm assim a reação final dos adversários: intencionam apedrejá-lo (8,59). Segundo Levítico 24,16, quem blasfema o nome de Deus deve ser executado com a pena de morte. Não compreenderam a revelação de Jesus e rechaçam abertamente a Deus em seu Verbo encarnado.

As autoridades judias que se proclamavam a si mesmas como conhecedoras de Deus, não foram capazes de reconhecer a Deus em seu Filho. Como enfatiza Jesus, não se parecem a seu Pai Abraão, que soube escutar a Palavra de Deus e respondeu com sua fé.

Daqui para frente, toda relação com Deus se estabelecerá a partir de Jesus, porque na sua Cruz se sela a Nova Aliança.  Dentro de uma semana estaremos celebrando a Quinta-Feira Santa e desde hoje fixemos nossos olhos no mistério por meio do qual chegamos ao verdadeiro conhecimento de Deus, reconhecendo-o na fração do pão.  Na Cruz eucarística de Jesus aprendemos a reconhecer o verdadeiro rosto de Deus e também nossa verdadeira identidade.  Contemplar a Jesus é poder dizer: “Assim é como Deus quer que eu viva”.  Somente em Jesus vemos o que Deus quer que saibamos e o que Deus quer que sejamos.

Para cultivar a semente da Palavra no coração:

1. Em que grupo creio estar: no dos que crêem ou no dos que rechaçam a Jesus? O que fundamenta minha resposta?

2. Sei reconhecemos Deus em Jesus, o que revela sobre Deus sua morte na Cruz?

3. O que me pede este evangelho que eu purifique e, ao mesmo tempo, que eu acrescente na minha relação com Jesus?


[1]Autor P. Fidel Oñoro, cjm, (http://www.iglesia.cl/especiales/cuaresma2013/orar2.html), tradução livre de Frei João Carlos Karling,ofm, para o site da Paróquia Rede de Comunidades São José, Gravataí.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Irmãos em Cristo, Paz e Bem.
Seu comentário é muito importante para nós...
Muito obrigado pela sua contribuição.
Que Deus lhe abençoe hoje e sempre!
Paróquia Rede de Comunidades São José